Erê
Chega rindo, mas não vem apenas brincar.
Na Umbanda, os Erês integram a Linha das Crianças e trabalham por meio da alegria, da sinceridade e da doçura. Chegam pedindo bala, brincando no chão, rindo alto — e é exatamente esse o método. A leveza não é o contrário do trabalho espiritual: é a porta de entrada dele.
A bala adoça o que a vida deixou amargo. O brinquedo desmonta as defesas que o adulto passou anos construindo. E a gargalhada devolve movimento a um coração que andava parado. Quem senta diante de um Erê costuma sair dizendo a mesma coisa: ele falou uma verdade que ninguém mais teria coragem de dizer na minha cara — e ainda assim não doeu.
Em setembro, essa energia também aparece nas celebrações de São Cosme e São Damião, santos católicos sincretizados no Brasil com Ibeji, a divindade gêmea da tradição iorubá. São fundamentos diferentes, de matrizes diferentes, que passaram a caminhar juntos na história brasileira — e é dessa costura que nasce o cheiro de doce nas casas no dia 27.
Confundir simplicidade com pouca coisa é o erro mais comum diante dos Erês. Eles não são a versão infantil de algo maior. São a lembrança de que existe uma inteligência que só funciona quando a gente para de se defender.
Do que você ainda ri sem precisar entender?
