Malunguinho
Antes de ser encantado, foi só alguém que recusou ser propriedade.
Malunguinho é ligado ao Quilombo do Catucá, em Pernambuco, no século XIX — um refúgio de pessoas que se recusaram a continuar sendo tratadas como propriedade. A tradição da Jurema Sagrada não diz que ele morreu: diz que se encantou, que atravessou para outro plano sem deixar o corpo vencer a luta.
O encantamento, nessa cosmologia, é outra forma de vencer. Quem se encanta não é derrotado pela história oficial — escapa dela, continua existindo em outro registro, onde ainda pode ser chamado, consultado, escutado. É a recusa de aceitar o roteiro que a violência tentou escrever como final.
Hoje Malunguinho é cultuado como guardião das matas, das encruzilhadas e de quem resiste. Sua história ensina que nem toda sobrevivência precisa ser visível ou reconhecida pelos termos de quem oprimiu — algumas se encantam, e seguem.
O que em você se recusou a morrer, mesmo quando pediram?
