Nossa Senhora Aparecida
Ela não promete que nunca vamos cair. Lembra que ainda podemos ser reconstruídos.
Em 1717, três pescadores lançaram a rede no rio Paraíba do Sul e puxaram uma imagem partida — o corpo primeiro, a cabeça depois. Estava escura, pequena, coberta de barro e limo. Só então, contam, a pescaria encheu. A Padroeira do Brasil começa assim: não descendo do céu, mas subindo do fundo do rio, em pedaços.
Em 1978, a mesma imagem seria quebrada outra vez, atirada ao chão dentro da própria basílica e reduzida a centenas de fragmentos. E outra vez mãos humanas se debruçaram sobre ela, peça por peça, até devolvê-la inteira. Duas quebras, duas reconstruções: a história dela é feita disso.
Talvez seja por isso que tanta gente se reconheça em Aparecida. Ela não é a santa da perfeição — é a santa do remendo. Negra, de barro, achada por trabalhadores num rio de trabalho, quebrada e recomposta. Uma imagem que carrega no próprio corpo a marca de já ter sido despedaçada e, ainda assim, é venerada por milhões.
Ela não promete que nunca vamos cair. Promete algo mais difícil e mais honesto: que ainda podemos ser recolhidos. E quem já viu de perto as velas de dois metros ardendo em Aparecida do Norte entende que a fé do povo brasileiro nunca foi discreta — ela é do tamanho do que se pede.
O que em você já foi recolhido do fundo do rio?
