Boto
O encanto sobe do rio de chapéu branco.
Nas noites de festa da Amazônia, conta-se que o boto-cor-de-rosa sobe do rio em forma de homem elegante — terno claro, chapéu branco cobrindo o respiradouro que o denuncia. Seduz, dança, desaparece antes do amanhecer. É folclore, memória e mistura de culturas: camadas indígenas, africanas e europeias na mesma encantaria.
Mas a lenda também é espelho de silêncios que o Brasil precisou encarar: por gerações, o “filho do boto” explicou gravidezes que ninguém podia explicar — ou que ninguém tinha coragem de nomear. O mito carrega beleza e carrega dor, como quase tudo que é verdadeiro.
E tem mais: o boto existe de verdade, nada nos rios da Amazônia, e está ameaçado. Entre o mito e a realidade, o encantado agora precisa de quem o proteja — a encantaria não sobrevive sem o rio.
O que em você seduz de terno branco — e o que esconde debaixo do chapéu?
