Circe
Você beberia do vinho de Circe?
Filha de Hélio, o Sol, Circe vive sozinha numa ilha cercada de feras mansas e conhece cada erva que nasce ali. Na Odisseia, recebe os homens de Ulisses com mesa posta, vinho temperado e voz doce — e, ao fim do banquete, eles estão grunhindo no chiqueiro. É a cena que a transformou no arquétipo da feiticeira no Ocidente.
Mas há uma leitura mais desconfortável do mito. Circe não inventa o porco: ela apenas retira o disfarce. O feitiço não transforma — revela. Homens que chegaram tomando a casa dela como se fosse deles saem exatamente com a forma daquilo que já estavam fazendo. A magia dela é um espelho com alguns minutos de atraso.
Ela é, ao mesmo tempo, hospedeira e ameaça, amante e carcereira, aquela que enfeitiça e aquela que depois ensina a rota. Nada nela é redondo. Circe é a mulher que mora só, sabe demais sobre plantas e não deve satisfação a ninguém — a descrição exata daquilo que a história, por séculos, decidiu chamar de bruxa.
Você beberia do vinho de Circe? A pergunta parece ser sobre coragem. É sobre outra coisa: sobre o que você acha que apareceria.
Se o vinho revelasse o que existe sob a sua pele, que forma apareceria?
