Garantido e Caprichoso
Um só boi, duas devoções — a rivalidade que também é festa.
No coração do Auto do Boi-Bumbá, Catirina, grávida, deseja comer a língua do boi mais querido da fazenda. Pai Francisco mata o animal para atendê-la — e é preciso um pajé para devolver o boi à vida antes que o dono descubra. Morte e ressurreição, dentro de uma só brincadeira popular.
Em Parintins, no Amazonas, essa lenda se multiplicou em duas torcidas: Garantido, de vermelho e branco, e Caprichoso, de azul e branco. Não são inimigos — são a mesma devoção, dividida ao meio, competindo todo ano no Festival para ver quem homenageia melhor a própria lenda.
A rivalidade, aqui, não corrói: fortalece. Cada lado se esforça mais porque o outro existe, e a tradição sobrevive justamente por ter dois guardiões cuidando dela com ciúme. Nem toda disputa precisa terminar em ruína — algumas mantêm viva a chama que ninguém sustentaria sozinho.
Que parte de você já morreu e voltou mais forte, com outra cor?
